Meu contato com a Medicina começou muito antes da faculdade.
Meu pai ganhou a vida vendendo livros de Medicina para estudantes da Universidade Federal de Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul. Cresci em uma casa cercada por livros médicos das mais diferentes especialidades. Minha mãe cuidava da casa, de mim e do meu irmão mais velho, Olavo. Tivemos uma infância simples, tranquila e muito ligada ao CTG que ficava na rua de casa.
Com a chegada da internet e o crescimento do comércio online, a pequena empresa de livros do meu pai entrou em dificuldades. O conforto financeiro que tínhamos diminuiu bastante e, para concluir o ensino médio em uma boa escola particular de Santa Maria, precisei de uma bolsa de estudos.
No final do terceiro ano, fui aprovado em Odontologia na Universidade Federal de Santa Maria. Para minha família, aquilo já representava uma enorme conquista: eu poderia ser o primeiro a concluir um curso superior.
Comecei Odontologia em 2010.
Cursei apenas um semestre.
Naquele mesmo ano, minha mãe precisou ser internada por uma inflamação na vesícula biliar e posteriormente passou por uma cirurgia. Como eu era o filho que naquele momento tinha maior disponibilidade, passei boa parte daquele período acompanhando-a no hospital.
Foi uma experiência aparentemente simples, mas que mudou o rumo da minha vida.
Depois que ela se recuperou e voltou para casa, comuniquei minha família: eu deixaria Odontologia. Queria fazer Medicina.
Meu pai quase enlouqueceu.
Até aquele momento, eu também não tinha exatamente a fama de ser o estudante mais dedicado da família. Depois de muitas conversas, meus pais e meu irmão decidiram me apoiar.
Passei os dois anos seguintes estudando em um cursinho pré-vestibular de Santa Maria, durante boa parte do período como bolsista. Na segunda tentativa, veio a aprovação em Medicina na Universidade Federal de Santa Maria.
Entrei na faculdade no primeiro semestre de 2013.
O começo foi tudo aquilo que eu imaginava: novos amigos, festas, laboratórios e a descoberta daquele universo que, de alguma forma, esteve dentro da minha casa desde a infância.
No final do primeiro ano, entretanto, minha história mudaria novamente.
Meu pai sofreu um AVC grave. Sobreviveu por pouco e ficou com sequelas importantes.
A partir daquele momento, os estágios extracurriculares deixaram de ser apenas uma oportunidade de formação. Também passaram a ser uma necessidade.
Durante a faculdade fui bolsista de pesquisa, monitor de Histologia, estagiário em laboratório de Patologia e trabalhei em um pronto-atendimento municipal. Cada uma dessas experiências ajudou a construir minha formação e também a atravessar aquele período da vida da minha família.
Curiosamente, até o último ano da faculdade eu estava convicto de que seguiria a Otorrinolaringologia.
Foi novamente uma necessidade prática que mudou meus planos.
No internato, assumi um estágio no Serviço de Ortopedia e Traumatologia do Hospital Universitário de Santa Maria. Entre plantões, cirurgias, ombros deslocados e ossos quebrados, percebi que havia encontrado o meu lugar.
A Otorrinolaringologia ficou para trás.
Após a graduação, decidi sair do Rio Grande do Sul e conhecer uma nova escola de formação. Com o apoio dos meus pais — e especialmente da minha mãe, que assumiu grande parte dos cuidados do meu pai — mudei para Florianópolis para iniciar a residência médica em Ortopedia e Traumatologia no Hospital Regional de São José.
Foram três anos extremamente intensos.
Muitos plantões. Muitas cirurgias. Muitos atendimentos. Muitas aulas. E muita saudade de casa.
O Hospital Regional de São José me ensinou muito mais do que Ortopedia. Ali aprendi sobre responsabilidade, trabalho em equipe, tomada de decisão e sobre o peso que existe em alguém confiar a própria saúde às nossas mãos.
Não tive escola profissional maior na minha vida.
Tenho profunda gratidão aos professores e chefes que participaram da minha formação e aos colegas de residência que dividiram comigo aqueles anos.
Ao terminar a residência, escolhi me dedicar à Cirurgia do Joelho. Minha aproximação inicial com a especialidade nasceu principalmente da admiração que tinha pelos meus professores e da confiança que eles depositaram em mim durante minhas primeiras cirurgias.
Depois de novas provas, veio outra mudança.
Dessa vez, para Jundiaí, no interior de São Paulo.
Durante 18 meses, dediquei praticamente toda minha vida profissional à Cirurgia do Joelho. Passei a conviver diariamente com grande volume de cirurgias eletivas, artroscopia, reconstruções ligamentares, tratamento das lesões meniscais e artroplastia do joelho.
Jundiaí refinou minha técnica cirúrgica, mas não apenas isso.
Aprendi muito sobre ética, responsabilidade e sobre a maneira como acredito que a Medicina deve ser exercida.
Ao final desse período, em 2024, prestei a prova para ingresso na Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ).
Naquele ano, percebi que não existia um curso especificamente voltado à preparação dos médicos que enfrentariam aquela prova. Depois de muitas conversas com amigos e colegas, surgiu a ideia de criar algo que eu mesmo gostaria de ter encontrado durante minha preparação.
Assim nasceu o Knee Concept.
O projeto começou como uma iniciativa de preparação para a prova da SBCJ e cresceu até se transformar em uma parte importante da minha vida profissional. Hoje dedico parte significativa do meu tempo ao ensino de médicos que estão concluindo sua formação em Cirurgia do Joelho, compartilhando conhecimento, discutindo casos e aprendendo também com cada nova turma.
Depois de tantos caminhos, voltei para casa.
Mas casa, hoje, já não significa apenas o Rio Grande do Sul onde nasci.
Escolhi Florianópolis para viver e construir minha trajetória profissional. É aqui que trabalho, opero meus pacientes, ensino e também procuro aproveitar a vida fora do hospital.
Gosto de caminhar na praia, tocar violão e outros instrumentos de corda, fazer churrasco e acompanhar o Grêmio. Quase sempre com um bom pagode tocando ao fundo.
Na Medicina, acredito em uma relação próxima, verdadeira e transparente.
Procuro tomar minhas decisões com base nas melhores evidências científicas disponíveis, mas sem esquecer que, antes de existir uma ressonância, uma lesão de ligamento ou uma artrose, existe uma pessoa tentando voltar a trabalhar, praticar seu esporte, brincar com os filhos ou simplesmente viver sem dor.
Nem sempre a cirurgia é o melhor caminho. Nem todo joelho pode voltar a ser exatamente como era antes.
Não tenho o poder de dar um joelho novo para ninguém.
Mas tenho o dever de melhorar o máximo possível aquilo que chega até mim.